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Quinta, 26 de Abril de 2018

Coluna 9 - Cirque Ici - O risco moderno

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Escrito por Rodrigo Maheus Seg, 28 de Maio de 2012 12:29

Cirque_Ici_002Rodrigo Matheus (11 de Maio de 2012)

O que é o circo? O que define o circo? Essa discussão é longa e muito divertida. Na minha opinião (e na opinião de um diretor russo, Maximiliam Niemtchinsky, com quem fiz um curso de uma semana de direção circense, e também na opinião de alguns outros teóricos do circo), o que define o circo é o truque. O feito espetacular, a proeza. A virtuose.
As outras formas de arte também têm isso, mas no circo, a proeza, o truque, é a base, a célula fundamental, a mola-mestra. É o que põe o número em movimento – e, com isso, o espetáculo. Nas outras formas de arte, o virtuosismo está presente, mas não é essencial, não é o que justifica o que se faz em cena/no picadeiro. O circo é um espetáculo onde tudo gira em torno do truque, que o artista vem para mostrar. “Olha o que eu sei fazer”, é o mote do artista circense.
Pois bem. No mês passado (11 a 15 de Abril) o SESC-SP trouxe ao Sesc Interlagos o impressionante circo francês Cirque Ici, com o espetáculo “Secrets 2”. Nele, um único artista e três “barreiras”, três ajudantes, faziam coisas incríveis. O personagem principal (e único) é um mago, um ser estranho, um personagem misterioso que nunca sorri, entra em cena e instaura esse ar de mistério. E vai construindo coisas, diante do público, domando objetos que parecem animais, ou animais que parecem objetos, equilibrando-se neles, mostrando do que é capaz o ser humano. Ele começa entortando um longo tubo de metal que, pouco a pouco, se molda numa espiral que o artista faz girar pelo palco e, por forças mágicas, rola por cima dele, sem tocá-lo, parecendo estar controlada pelo criador/domador, como uma fera no circo que temos na memória. Cirque_Ici_003Em outra cena, outro objeto, este mais elaborado, lembra um dinossauro, uma espiral vertical com dois apoios no chão, que a põem em movimento ou a fazem ficar parada. Aí, mais ainda, o artista parece ser um domador-acrobata, montado em sua fera pré-histórica. Em outra cena/número, um trapézio balança de ponta a ponta do picadeiro, com um boneco multi articulado pendurado, executando evoluções conduzidas pelo tipo de desenho de sua forma, assemelhando-se às evoluções dos trapezistas, sugerindo na mente do espectador, o que já vimos (ou gostaríamos de ter visto) ser feito por pessoas de verdade. Em outro momento, esse de puro lirismo e poesia fantástica, o “mago” conjura um furacão no meio do picadeiro, aos olhos da plateia. Uma fumaça começa a se retorcer, e vira um pequeno tornado, reiterando o que já sentíamos, que Johann le Guillerm, o criador e artista deste Cirque Ici, é um mago da invenção.
Suas invenções/construções são impressionantes pois parecem sempre muito simples, além de inusitadas, sugerindo que foi ele quem as construiu (sim, está escrito no programa, foi ele quem as construiu). E, na apresentação dessas “invenções”, o artista se põe em risco, um risco circense, de cair, ou de tudo se quebrar.
As duas cenas mais impressionantes são um prato cheio para arquitetos. Em uma delas, o ser misterioso, ajudado por duas “barreiras”, usa caibros de cerca de três metros de comprimento para, apoiando-os dois a dois, construir estruturas que se assemelham a outro animal como na foto, e chegam a cobrir o picadeiro todo, permitindo ao artista ficar em baixo (é assim que se faz uma casa?) ou em cima (evidenciando o risco de aquilo se soltar e tudo vir abaixo). A técnica usada, ao invés de ser acrobática, é a técnica dos arquitetos e engenheiros medievais, na forma de arcos apoiados pelas pontas, sem qualquer amarração. Tudo muito instável, frágil, como é a natureza humana, e o próprio conhecimento civilizatório.
Por fim, a cena final, de deixar qualquer um sem fôlego. Ajudado por um único “barreira”, Johann le Guillerm se propõe a não tocar no chão. Vai se apoiando em grandes vigas que são trazidas para o palco, com uma corda grossa e comprida enrolada no corpo (como a corda do Capitão Ahab usaria para caçar Moby Dick). Assim, o artista apoia uma viga na outra e, amarrando-as nas pontas, vai criando pontes, lanças suspensas, vagamente equilibradas, nas quais ele sobe, para amarrar a próxima viga, e assim por diante, criando uma imensa espiral que ocupa todo o picadeiro, igual a uma torre de Babel, domando com a corda, como os pescadores ou circenses de antigamente.
Como disse um amigo arquiteto: parábolas, helicoides e espirais lindas...
Pura magia, filosofia e alquimia. Circenses. Sim, circenses, pois vemos o ser humano domando as forças da natureza, igualzinho no circo. Só que o mundo que ele evoca é um mundo que nos faz pensar, além de sentir. Aliás, desde a entrada na lona, vemos figuras que misturam tecnologia com pré-história, como os dois canhões seguidores pendurados no topo do picadeiro, como se fossem trombas assustadoras. Ou as lampadinhas que entram no picadeiro (sem ninguém as puxar, pura engenhoca), sugerindo um cirquinho de sonhos, de fantasia, com um jeito muito antigos.
Muito simples, porém mágico, como todo o espetáculo. Aliás, se o circo é um local de magia, o Cirque Ici é um lugar de feitiçaria. Onde o domínio do homem mistura filosofia, tecnologia e misticismo, como era antigamente.
Cirque Ici faz um espetáculo envolvente,mesmo para as crianças que estavam no dia que eu fui. E, para os adultos, uma enorme vontade de criar coisas, de subir no palco/picadeiro e ser louco, visionário, criador, fazer o papel de Deus, como os circenses fazem, mas parece termos nos esquecido ultimamente – apenas alguns tentam se parecer com Deus, e se esquecem da humildade...
Que bom que o SESC trouxe esse espetáculo, difícil de ser trazido (em carceria com a Cena Cult, da julia Gomes). Pena que foi tão pouco divulgado, e poucos circenses conseguiram vê-lo.
Para além da destreza física (que existe, pois ele realiza equilíbrios impressionantes), vemos a destreza mental ou, como diria Alice Viveiros de Castro, as “acrobacias mentais” de Johann le Guillerm, o feiticeiro.
Estou lendo o excelente livro francês “O Circo no Risco da Arte”, editado por esforço da Agentz Produções, lançado no festival Mundial de Circo de dois anos atrás.Cirque_Ici_004Cirque_Ici_005
 

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