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Quinta, 26 de Abril de 2018

Uma beleza estabeleceu-se em mim

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Escrito por Erminia Silva Qua, 09 de Dezembro de 2009 22:27

Em janeiro de 2007 fui convidada por Daniel Lins e Izabel Gurgel, respectivamente curador e coordenadora do Programa Pensamento Contemporâneo: Fazendo Rizoma, para participar dos seminários da Funcet - Fundação da Cultura, Esporte e Turismo da Prefeitura de Fortaleza, Ceará.

Naquele momento, Izabel me apresentou José Alves Netto, gestor cultural, produtor, pedagogo e que coordenava as áreas de teatro e circo da Funcet. Ao me apresentar, ela tinha intenção que ele me proporcionasse um passeio turístico por Fortaleza que eu nunca havia feito. Tive o prazer e a honra de ser recepcionada por ele para ser meu cicerone e conhecer o resultado de um projeto, desenvolvido desde julho de 2006, denominado de Projeto Circo de Todas as Artes. Levou-me para dois bairros periféricos da cidade e conheci dois circos que haviam sido escolhidos, via edital, para terem suas próprias lonas. Um deles foi o World Circo, de propriedade de Isaac Brito Silva, considerado uma das famílias mais tradicionais de circo do Ceará. O outro circo era o Mirtes Circo, de Círio dos Santos Brasil, que entre outras características importantes em seu currículo, uma das mais interessantes era o fato de ser “pai do Palhaço Baratinha, de apenas 11 anos de idade”.

No primeiro circo que visitamos, o Mirtes Circo, quando fomos entrando pelo bairro e pela primeira vez vi o toldo do circo, fiquei impressionada com a reação que tive, pois, diferente de outras situações parecidas, a experiência não foi a de estar vivenciando uma situação de pobreza tanto pelo bairro quanto pelo circo. Ao contrário. O que vi do toldo foi de uma beleza tão grande, que contaminava o bairro. Círio dos Santos Brasil, proprietário do circo, com a verba do Projeto, adquiriu de uma fabricante de out doors material que o possibilitou “galvanizar” (expressão dele) várias propagandas. Como as mesmas eram todas de fundo branco, a parte externa do circo ficou assim, sendo que nas partes internas constavam as propagandas de marcas e artistas famosos.

Além dessa pitoresca forma de produzir uma lona de circo que o transformou numa beleza rara, Círio e sua família nos receberam com um otimismo e felicidade, pois como seu circo fazia parte do Projeto Circo de Todas as Artes, seu palco/picadeiro havia se transformado também em espaço que tinha como meta o estímulo de circulação e difusão da cultura circense, espetáculos de dança, exibição de filmes, apresentações musicais, tudo ao mesmo tempo, no centro do picadeiro.

Para Círio, seu circo fazia parte de um projeto de grande aceitação junto à comunidades e aos artistas circenses, do teatro e da dança, além do fato de que já fazia parte do calendário cultural de Fortaleza, promovendo ingresso gratuito para a população a programações artísticas de qualidade nos bairros onde havia maior carência de acesso cultural e econômico. Transformava seu “toldo” e sua estada nesses bairros como a oferta artística mais significativa e cidadã.

Não foi muito diferente a experiência que vivi ao visitar o World Circo. Ao contrário de Círio, Isaac tinha vários filhos adultos que estavam construindo sua própria lona com o prêmio do mesmo projeto. O bairro onde estava instalado era mais carente que o anterior, uma ocupação de favela, com esgoto a céu aberto, ruas quase sem condições de tráfego, entre vários outros problemas que as populações da periferia conhecem muito bem. Ao ver a lona nova armada, naquele bairro, e a família com sinais de otimismo ao fazer parte desse projeto político cultural, uma certa beleza se estabeleceu para mim.

Após visitar esses dois circos, comentei com várias pessoas a rara emoção que senti. Quando voltei para o sudeste, relatei sobre o projeto e o que tinha vivenciado, ou seja, que tanto o toldo e as famílias circenses inseridos em um meio de pobreza que consideramos feios pela suas formas de ocupações humanas e arquitetônicas, tinham me proporcionado sentir o belo e ver a beleza. Mas nunca havia escrito uma única linha a respeito, até que me foi apresentado o livro de Jacques  Antunes: Circo – Eterno tráfego de vida e sonho, e a proposta de escrever sobre ele.

Quando fui vendo cada foto registrada por Jacques, foi como se estivesse fotografado com meu olhar aquele dia da visita aos circos, naqueles bairros na cidade de Fortaleza, em janeiro de 2007. O olhar do fotógrafo, as imagens que ele “congelou”, as escolhas que ele significou para registrar a sua interpretação daquela realidade, resultou numa seqüência de visões do belo e da beleza.

É lugar comum alguns jornalistas, fotógrafos, pesquisadores, artistas de outras áreas, ou até mesmo o senso comum afirmar que “gostavam mesmo dos cirquinhos de antigamente, aqueles com lonas furadas”. É claro que não podemos impedir a liberdade poética das pessoas, mas lona furada para os circenses é sinal de dificuldades econômicas de tal ordem que não conseguem substitui-la por uma nova. A poesia de uma lona furada é logo rompida aos primeiros sinais de chuva, quando o público deixa de ir ao circo para não ficarem ensopados.

Para mim o registro fotográfico social e cultural das imagens de Jacques são um cruzamento de liberdade poética com o que de real aqueles artistas estavam vivenciando. Suas fotos não registram a pobreza, ou seja, um circo pobre num bairro favelado. Ao contrário, elas nos mostram prazer. Acrescente-se a isso o entendimento de que havia todo um exercício político importante que dava aos circenses um movimento de grupo com potência de vida e não de morte. Recém haviam criado uma associação e estavam militando em prol de reivindicações para todo o coletivo de homens, mulheres e crianças do circo. A lona nova, o projeto Circo de Todas as Artes, entre outros, já eram resultados de políticas públicas e não política de governo, quer dizer, independente do gestor municipal que muda a cada eleição. Ou seja, vira política pública porque saiu da esfera privada do governo e virou interesse do público.

Quando coloco potência de vida, claro que é para marcar uma posição das inúmeras opiniões sobre a decadência ou morte do circo no Brasil. Não há como negar a diminuição significativa da quantidade de circos itinerantes de lona, por diversas razões, entre as quais a falta de terrenos nas cidades, a falta de investimento público por parte dos gestores municipais e estaduais em receber os circos, mas, há que considerar, também, que os próprios circenses das lonas, desde pelo menos a década de 1950, deixaram de realizar investimentos na produção do circo como espetáculo.

Quando escrevo sobre investimento não me refiro apenas ao econômico, que é importante, mas só ele não garante e nunca garantiu a qualidade de nenhum artista. Refiro-me ao investimento no próprio processo de formação/aprendizagem do artista circense. A partir das décadas de 1950/60 as famílias não mais transmitiram seus saberes para as gerações seguintes. Estas deixaram de aprender nas escolas de circo que eram as próprias lonas, para serem matriculadas em “escolas formais” nas cidades em que se fixaram.

Diversas foram as causas, entretanto não cabe nesse texto um aprofundamento dessa questão. O importante é entender que a não transmissão dos saberes e práticas foi uma das razões que provocou novas formas de organização do trabalho. Entretanto, não se pode ver processos de mudanças e transformações como decadência ou morte do circo.

No final da década de 1970 e início de 1980, surgem as escolas de circo fora da lona, os projetos sociais que usam a linguagem circense como ferramenta pedagógica, os artistas autônomos e autodidatas, os festivais, os encontros de circos, a presença da linguagem circense para dentro dos muros acadêmicos. Então, ao mesmo tempo que uma forma de produção, o circo itinerante de lona diminuiu, nunca as atividades circenses foram tão disseminadas em toda a capilaridade da sociedade brasileira.

Ao mesmo tempo em que se pode analisar as dificuldades por que passam os circos itinerantes de lona, no Brasil, que são reais e duras, temos exemplos como em Fortaleza, com militância por parte dos circenses, junto com gestores culturais como Izabel Gurgel, José Alves Netto, Silêda Franklin, entre muitos outros, que produzem coletivamente a beleza diária do circo.

Um dos melhores exemplos disso são as imagens de Jacques que, para mim, conseguiu em seus registros fotográficos captar tudo isso: não partiu do lugar comum de afirmar que o circo está morrendo, vai morrer ou já morreu. Ele registrou a vida e sua produção.

É muita liberdade poética de minha parte e de Jacques? Talvez. Mas, é isso que representa o resultado de um trabalho de pesquisa sério e implicado como as suas fotos. Quem só vê o imediatismo das realidades, tende a registrar a mesmice.

 

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